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Burkina Faso e o aprofundamento das desigualdades devido as mudanças climáticas

O aquecimento global é amplamente reconhecido como a maior ameaça que o mundo enfrenta, com previsões de eventos climáticos extremos aumentando em frequência e intensidade nos próximos anos. Porém, apesar de seus efeitos serem sentidos por todas as nações, a realidade é que nem todos os países são afetados no mesmo nível. As desigualdades entre eles são refletidas no tamanho do impacto das mudanças climáticas, assim os países mais pobres tendem a ser mais afetados que os ricos, e dentro desses, suas populações mais vulnerabilizadas estão em maior risco. Em especial, as mulheres acabam sendo o grupo social mais impactado devido à sua posição precária no mercado de trabalho além de outros fatores sociais. Apesar dos inúmeros estudos sobre os impactos dos eventos climáticos nas economias ao redor do mundo, ainda existe uma falta de pesquisas sobre a questão feminina em países em desenvolvimento e, em particular, no continente africano.


Por conta disso os pesquisadores Boureima Sawadogo e Ramos E. Mabugu realizaram o estudo: “Economywide impact of climate shock on agricultural sector, women employment and poverty: a Burkina Faso case study” para contribuir com a analise sobre o impacto dos choques climáticos em países em desenvolvimento, principalmente em relação a agricultura e ao emprego feminino, utilizando um método em que o mudanças climáticas são modeladas pela diminuição da produtividade agrícola até o ano 2050, e escolhendo Burkina Faso como estudo de caso.


Burkina Faso é um país pobre que faz parte da África Ocidental e, como é comum aos países dessa região que foram colonizados pela França, utiliza o Franco CFA da África Ocidental como moeda oficial. Moeda essa que permite considerável influencia da França sobre as economias desses países, já que além de ser atrelada ao Euro, também exige que pelo menos 50% de suas reservas estrangeiras estejam investidas no tesouro francês. Há décadas esses países vem discutindo a criação de uma nova moeda, com o objetivo de garantir maior independência económica, porém o lançamento dessa iniciativa vem sendo adiado, com o prazo mais recente sendo de 2027.


Imagem 1 - Localização de Burkina Faso

Fonte: Google Maps, 2026
Fonte: Google Maps, 2026

O estudo do país é relevante também pela questão da alta dependência na agricultura, já que coloca a nação numa posição mais vulnerabilizada aos efeitos das mudanças de temperatura e chuva. O setor agrícola representa uma parte considerável do PIB e a maior parte da população está empregada nessa atividade. Ademais, a agricultura é crucial para a alimentação da população e para a renda de exportação. Essa dependência do país na agricultura e a vulnerabilidade do setor ao aquecimento global já foi demonstrada em eventos climáticos passados, como as inundações de 2009 e de 2020, que causaram grandes danos econômicos e de infraestrutura.


A agricultura é naturalmente um setor sensível ao clima, assim um país que se especializa nessa área, sempre teve sua economia em algum nível a merce de desastres naturais e variações climáticas no geral, em comparação com países com economias mais variadas e com maior foco em setores menos dependentes do clima, como o industrial e de serviços. Contudo, com o aumento na frequência e intensidade de desastres naturais e maior imprevisibilidade do clima, esses países mais dependentes em agricultura serão os mais vulnerabilizados, e como são as nações mais pobres que tem essa característica, terão menor capacidade econômica de lidar com esses problemas.


Ademais, mesmo dentro de um país, os efeitos do aquecimento global são sentidos de maneira desigual. Como secas e inundações são geralmente localizadas no campo, onde água potável, infraestrutura de irrigação e estradas são precárias ou inexistentes, isso torna essas áreas mais vulnerabilizadas às mudanças climáticas. Além da diferença entre campo e cidade, homens e mulheres também são afetados de maneiras diferentes, mesmo que as mulheres não são sejam inerentemente mais expostas ou vulnerabilizadas às mudanças climáticas do que os homens, essa realidade se dá por conta das normas sociais como a falta de propriedade de terras e poder de decisão. Como visto anteriormente, o campo costuma ser mais afetado que a cidade, assim as mulheres do campo costumam ser mais afetadas que as da cidade.


Concomitantemente, existe a desigualdade no mercado de trabalho, as mulheres estão presentes em um número limitado de setores e a maioria está envolvida em trabalho domestico. Em 2021, as mulheres tinham uma taxa de participação no mercado de trabalho de 57%, em comparação com 73% para os homens, para fins de comparação, segundo o IBGE, no 3º trimestre de 2021, as mulheres brasileiras tinham uma participação de 52% em relação a 72% dos homens, o que indica que essa é uma questão comum aos países em desenvolvimento.


Em atividades não remuneradas, as mulheres de Burkina Faso dedicam mais tempo do que os homens alocando aproximadamente 4 horas e meia por dia ao trabalho doméstico, enquanto os homens alocam menos de meia hora. Assim, as exigências impostas às mulheres em tarefas domésticas resultam em uma menor participação delas no mercado de trabalho remunerado, dificultando sua independência. E mesmo para aquelas que estão no mercado de trabalho remunerado, são mais afetadas pelo desemprego e o subemprego. Essas disparidades econômicas e sociais existentes tendem a se agravar com a intensificação dos efeitos do aquecimento global.


Em relação aos resultados do estudo, considerando a redução na produtividade agrícola até 2050, é observado uma amplificação da pobreza e da desigualdade de gênero. Além disso, os efeitos negativos na agricultura se estendem a outros setores, ou seja haveria redução tanto na produção agrícola quanto na não agrícola. Se tratando das diferenças entre campo e cidade, as famílias da cidade apresentam redução na capacidade de consumo, enquanto as do campo ficam mais vulneráveis a pobreza. Sobre a questão feminina, o tempo que as mulheres dedicam ao trabalho remunerado em comparação com os homens seria reduzido, especialmente no campo, assim as disparidades de gênero seriam exacerbadas, deixando as mulheres, particularmente as mulheres do campo, mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.


Em 2024, o principal produto agrícola exportado foi o algodão seguido de sementes e frutas. De acordo com os achados da pesquisa, esses também são os produtos mais afetados pelas mudanças climáticas, no cenário mais extremo eles apresentam redução de mais de 9% na produção. Evidentemente, haveria um impacto negativo considerável nas exportações do país, e apesar das culturas tradicionais, mais representativas do consumo da população, como milho, tubérculos e leguminosas, se demonstrarem mais resilientes as mudanças climáticas, com reduções menores, o país está longe de ser autossuficiente, sendo a importação de arroz particularmente importante. Desta forma, a redução nas exportações leva a um problema na balança de pagamentos, que pode prejudicar a capacidade do país de obter os recursos necessários para abastecer sua população.


Para colocar em perspectiva, o Brasil é o maior exportador mundial de diversos produtos agrícolas como soja, café, carnes e açúcar, e os efeitos das mudanças climáticas já estão causando grandes prejuízos que vêm crescendo desde 2020 e bateram recorde em 2022. Com a possível redução da produção agrícola por efeito das mudanças climáticas, seria esperado a queda da capacidade de exportação, e apesar do país não ser tão dependente da importação de alimentos para abastecimento interno quanto Burkina Faso, o problema da fome já existe no Brasil com 6,48 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave em 2024 segundo o IBGE, e além disso o país é um grande importador de fertilizantes. Portanto, os prejuízos do agricultura prejudicam a própria manutenção do setor ao diminuir a capacidade do país de obter os recursos necessários para seu abastecimento.


Na visão dos pesquisadores, a principal contribuição do estudo é estabelecer uma ligação entre os efeitos das mudanças climáticas, gênero e pobreza. No entanto, eles reconhecem algumas limitações que abrem caminhos para pesquisas futuras. Como o fato de que a construção do cenário proposto se baseia em mudanças na produtividade de apenas um setor. Estudos futuros poderiam ampliar essa abordagem, levando em consideração mudanças na produtividade do trabalho e da terra, bem como a destruição da infraestrutura. Outra questão é que, embora Burkina Faso esteja frequentemente exposto a choques climáticos, sua intensidade varia consideravelmente de ano para ano. Nesse sentido, a incorporação de elementos como a probabilidade de ocorrência de eventos específicos, com base no histórico de desastres do país, seria relevante, principalmente para esforços de prevenção.


Um aspecto crucial que o estudo traz para a elaboração de politicas publicas, é que os impactos das mudanças climáticas no emprego, na segurança alimentar e na pobreza variam de acordo com o nível de qualificação, a localização geográfica e o gênero. Mulheres sem qualificação que vivem no campo são particularmente vulnerabilizadas. Assim, existe a necessidade de direcionar as políticas de desenvolvimento agrícola e adaptação climática para investimentos e medidas que levem em consideração as características específicas do setor e as necessidades das populações mais vulnerabilizadas.


As mudanças climáticas já estão afetando significativamente a agricultura no mundo todo. Aumento das temperaturas e eventos climáticos extremos mais frequentes estão reduzindo a produtividade do setor agrícola e ameaçando a segurança alimentar global. A seca de 2022–2023 na África Oriental foi a pior em quatro décadas e deixou mais de 20 milhões de pessoas enfrentando insegurança alimentar na Etiópia, Somália e Quênia. No Paquistão, as enchentes em 2022 foram consideradas as piores na historia do país e afetaram mais de 33 milhões de pessoas. No Brasil, mais recentemente nas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, o setor agrícola teve prejuízos de 2,3 bilhões de reais e mais de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas. Portanto, a necessidades de politicas para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas são uma questão imediata e não mais uma necessidade futura.


Em 2023, o governo de Burkina Faso lançou o programa “Agricultural Offensive” (Ofensiva Agrícola) com o objetivo de acabar com a dependência das importações de produtos alimentícios amplamente consumidos. As medidas incluem a alocação de fundos para a compra de equipamento agrícola para a agricultura familiar e o agronegócio, e incentivar a adição de valor aos produtos produzidos no país. Em 2024, foi inaugurada no país a primeira planta de processamento de tomate de sua historia. Essas medidas podem ajudar o país a se tornar mais independente e menos vulnerabilizado as mudanças climáticas.


Em conclusão, são necessárias medidas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, e essas precisam levar em consideração as desigualdades já existentes no país. Algumas das ações sugeridas pelos autores para lidar com os problemas apresentados são o estabelecimento de programas governamentais que tenham por objetivo o aumento do acesso das mulheres a melhores tecnologias agrícolas e de irrigação, ao acesso a crédito e informações sobre as mudanças climáticas, o incentivo a agricultura da cidade com o objetivo de aumentar a segurança alimentar nas cidades, o apoio a famílias chefiadas por mulheres, além de medidas para assegurar às mulheres o direito a terra e a herança.


Referências:


MABUGU, R. E.; SAWADOGO, B. Economywide impact of climate shock on agricultural sector, women employment and poverty: a Burkina Faso case study. Front. Sustain. Food Syst., vol. 9, 2025. THE OBSERVATORY OF ECONOMIC COMPLEXITY, Burkina Faso. Disponível em: https://oec.world/en/profile/country/bfa. Acesso em: 13 abr. 2026.


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