A dependência dos países subdesenvolvidos em remessas: o caso do Nepal
- João Pedro da Silva

- há 24 horas
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As remessas consistem em pagamentos de trabalhadores estrangeiros enviados para suas famílias em seus países de origem. Esse tipo de recurso externo tem sido cada vez mais importante para a estabilidade financeira de países pobres, principalmente em meio a instabilidades econômicas e politicas. Segundo o Banco Mundial, as remessas para países de baixa e média renda atingiram US$ 685 bilhões em 2024, um aumento em relação aos US$ 647 bilhões em 2023.
O Nepal é um país agrário na Ásia, localizado entre a China e a Índia, utiliza a rupia nepalesa como moeda oficial e é conhecido principalmente por ser a terra da mais alta cadeia montanhosa do mundo, os Himalaias. Porém, o que é pouco discutido é que entre 1996 a 2006 houve uma guerra civil que acabou com a abolição da monarquia no país entre outras mudanças politicas. Após pouco mais de 20 anos de relativa estabilidade, em setembro de 2025, tudo mudou, ocorreram grandes protestos em todo o país.
Imagem 1 - Localização do Nepal

Essas manifestações foram predominantemente organizados por jovens estudantes e ficaram conhecidos como "protestos da Geração Z", o que popularizou o termo que continuou a ser utilizado para caracterizar outras manifestações populares liderados pela juventude ocorridas em outros lugares do mundo como no Peru e no Marrocos. A revolta da juventude nepalesa começou em parte em resposta a uma proibição nacional a redes sociais, como YouTube, Facebook e WhatsApp, rapidamente, porém, o movimento se expandiu para abranger questões econômicas mais amplas. A situação agravou-se, com violência policial contra crianças, além de utilização de balas de fogo contra protestantes. Foram mais de 2.5 mil feridos e 76 pessoas mortas, e teve como conclusão a renuncia do governo.
Segundo Organização Internacional do Trabalho, o Nepal possui a maior parte da força de trabalho no mercado informal, quase 85%, desta forma, a proibição das redes sociais vira um problema econômico, já que muitos trabalhadores vão utilizar essas ferramentas para viabilizar seu sustento. Além disso, existe a questão do alto nível de desemprego entre a população jovem, que de acordo com o Banco Mundial, fica por volta de 20%. Para fins de comparação, segundo o IBGE, o Brasil, em 2024, registrou por volta de 38% de pessoas no mercado de trabalho informal e 10% de desemprego entre a população com faixa etária de 18-29 anos. Esses problemas muitas vezes forçam parte dos trabalhadores, principalmente da juventude, a buscar oportunidades fora do país.
Durante períodos de instabilidade interna, que causam grandes interrupções na atividade econômica, as remessas basicamente se tornam a entrada de renda mais confiável. Desta forma, é interessante analisar o artigo “Migration and Remittances: Assessing Their Role in Socioeconomic Development in Nepal (2000- 2023)”, de autoria dos pesquisadores Dr. Chuda P. Dhakal, Purna Dhungana, Abbal Dhakal, Aviral Dhakal e Apekshya Dhakal, que busca examinar como a emigração e as remessas impactam o desenvolvimento socioeconômico do Nepal, utilizando como base de sua analise o período entre 2000 e 2023. O estudo investiga as implicações das remessas no crescimento do PIB, alívio da pobreza e estabilidade econômica. Além disso, analisa a vulnerabilidade do país diante das volatilidades na economia global que são geradas por esse caminho de desenvolvimento.
Segundo os autores, esses recursos externos ajudam a manter certa estabilidade econômica em meio a crises internas, porém, também levam a diminuição da participação na força de trabalho e a emigração de trabalhadores, em especial os mais qualificados, além de promoverem a estagnação econômica ao inibir a produtividade e a inovação domésticas, e frequentemente causarem desequilíbrios entre o campo e a cidade, favorecendo o consumo em detrimento dos investimentos em atividades produtivas. Questões que se intensificam em crises como a COVID-19, que é especialmente relevante pois interrompeu os fluxos globais de remessas, piorando as condições econômicas para famílias dependentes.
Com o recebimento das remessas, as famílias tendem a gastar com as necessidades mais básicas, alimentação, saúde e educação, ou seja, esses recursos dificilmente vão para o desenvolvimento das forças produtivas do país. Mesmo sendo uma nação agrícola, importa mais comida do que exporta, então os recursos das famílias vão para produtos que não foram produzidos no país, efetivamente não contribuindo muito para a produção nacional, além de que os investimentos em educação, mesmo que levem a formação de uma mão de obra mais qualificada, no final não é aproveitada pelo próprio país, que tem que observar esses trabalhadores irem contribuir com outras economias.
Além disso, ainda existe o fator das condições de trabalho desses emigrantes no país em que vão trabalhar. Pela própria natureza de sua condição mais instável em um lugar novo, que não tem família ou amigos, ou seja, uma rede de apoio, além de não estarem acostumados com a cultura ou com o idioma, estão muito mais vulnerabilizados a sofrerem um maior grau de exploração que os trabalhadores locais, estão sujeitos a “fazer o trabalho que os locais não querem fazer”. Bem como é verdade que a situação é tão critica, que não é apenas uma “fuga de cérebros”, mas muitos nepaleses saem do país para trabalharem em áreas que exigem muito pouca qualificação, onde estão ainda mais propensos a extrema exploração. Estão sujeitos a baixos salários, condições de trabalho severas além de riscos à segurança.
Gráfico 1 - Tendência dos Fluxos de Remessas no Nepal (2000–2023)

Em relação aos resultados do artigo, foi observado que o fluxo de remessas continuou a aumentar de forma constante ao longo dos anos e atingiu picos significativos durante a fase de maior estabilidade política e desenvolvimento econômico. Como é demonstrado pelo gráfico acima, há uma tendência de crescimento constante, com algumas quedas perceptíveis durante grandes crises globais, a crise de 2008 e a COVID-19, o que destaca como fatores econômicos externos podem interromper essas formas críticas de entrada financeira.
Gráfico 2 - Remessas pessoais como porcentagem do PIB no Nepal (2000–2023)

Além disso, como é demonstrado pela imagem 2, a proporção de remessas pessoais em relação ao PIB de 2000 a 2023 também mostra um aumento significativo. As remessas subiram de forma constante de 2,03% do PIB em 2000 para atingir um máximo de 26,31% em 2023. Essa tendência reflete uma dependência crescente das remessas para manter a renda das famílias.
Apesar de alguns ganhos econômicos no país, os protestos e a insatisfação popular no geral demonstram que a questão não é tão simples, e que existem problemas inerentes na economia de um país que se propõe a depender tão intensamente nas remessas para seu desenvolvimento.
Por fim, o estudo conclui que são necessárias medidas para lidar com a dependência do país em remessas. Algumas das ações sugeridas são investimentos em setores como a industria e a agricultura para diversificar a economia do país, e introduzir políticas para garantir a distribuição e utilização equitativas das remessas no campo e na cidade. Desta forma, na visão dos autores, a questão da dependência do Nepal em remessas deve ser resolvida urgentemente, havendo a necessidade da implementação de estratégias para a diversificação econômica.
Referências:
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