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Estreito de Ormuz: um ponto crítico da economia global

Recentemente, o Estreito de Ormuz voltou ao centro das tensões geopolíticas após confrontos envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Os estreitos são canais naturais estreitos que se localizam entre duas massas de terra e conectam dois corpos d’água maiores[1]. Alguns deles constituem importantes rotas comerciais para o escoamento de exportações e importações no mercado internacional, o que os torna pontos estratégicos para a economia, a política e o poder militar[2], como é o caso de Ormuz.


No Oriente Médio, a segurança dos estreitos é de importância crucial para a economia internacional, especialmente para o mercado de hidrocarbonetos, composto principalmente pelo comércio de petróleo e gás natural. Em particular, o Golfo Pérsico concentra uma parcela significativa das reservas mundiais desses recursos, cujo escoamento depende, em grande medida, da navegação segura pelo Estreito de Ormuz[3].


Ormuz fica entre Omã e o Irã, e liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã[4] . Ele é um dos pontos de estrangulamento mais importantes para o fluxo de petróleo do planeta, e existem poucas alternativas para o escoamento desse petróleo em caso de fechamento do estreito. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos até possuem algumas rotas de exportação que não transitam pelo Estreito de Ormuz, porém, outros países, como Irã, Iraque, Kuwait, Catar, Bahrein, dependem do Estreito para realizar a grande maioria de suas exportações[5].


Localização geográfica do Estreito de Ormuz, principal rota marítima de escoamento de petróleo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Fonte: National Geographic Brasil.
Localização geográfica do Estreito de Ormuz, principal rota marítima de escoamento de petróleo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Fonte: National Geographic Brasil.

 

Em 2025, transitaram em média 20 milhões de barris por dia (b/d) de petróleo bruto e derivados. Quase 15 milhões b/d de petróleo bruto, cerca de 34% do comércio global, passaram pelo estreito com destino à Ásia, com China e Índia recebendo 44% dessas exportações; os países da Agência Internacional de Energia importam cerca de 29% desse petróleo bruto, sendo o Japão e a Coreia do Sul particularmente dependentes dos fluxos que atravessam o Estreito; apenas 4%, cerca de 600 mil barris, são destinados à Europa[6].


Fonte: International Energy Agency (2026), com base em dados da Kpler.
Fonte: International Energy Agency (2026), com base em dados da Kpler.

Ademais, os mercados asiáticos foram o destino da maior parte dos 5 milhões de barris por dia de produtos petrolíferos que passaram pelo Estreito em 2025. Diante desses dados, evidencia-se a centralidade do Estreito de Ormuz para o funcionamento do mercado energético global.


Fonte: International Energy Agency (2026), com base em dados da Kpler.
Fonte: International Energy Agency (2026), com base em dados da Kpler.

Com o enorme volume de petróleo exportado pelo Estreito de Ormuz e as limitadas opções de rotas alternativas, qualquer interrupção no fluxo pode causar enormes consequências para os mercados mundiais. O impacto sobre o preço ocorre principalmente pelo lado da oferta global, reduzindo a quantidade de petróleo disponível no mercado e elevando os preços.

 

A recente crise evidencia esse mecanismo, pois, mesmo que o Estreito de Ormuz não tenha permanecido completamente fechado, a forte redução no fluxo de navios foi suficiente para reduzir a oferta global de petróleo e provocar elevação significativa nos preços internacionais. A alta do petróleo, em especial do tipo Brent, referência no mercado internacional, que chegou a ultrapassar US$100 por barril[7], alimenta diretamente os índices de inflação ao consumidor, aumentando o risco de um aperto monetário por parte dos bancos centrais e de desaceleração da atividade econômica.

 

O Estreito de Ormuz também é importante para a cadeia global de fertilizantes, por onde escoa uma parcela significativa de ureia, amônia, fosfato e enxofre consumidos no mundo. Para o Brasil, que não possui uma indústria nacional de fertilizantes robusta, esse cenário é particularmente preocupante; em 2025, as importações representaram 88% do consumo total de fertilizantes do país. O potássio é o nutriente para o qual o país é mais dependente, com cerca de 96% sendo importado, enquanto a dependência em relação ao nitrogênio também é elevada[8]. Como consequência, o aumento dos preços desses insumos pode elevar os custos da produção agrícola, pressionar os preços dos alimentos e contribuir para a inflação.

 

Fonte: COLUSSI; LANGEMEIE (2026)
Fonte: COLUSSI; LANGEMEIE (2026)

A centralidade do Estreito de Ormuz também evidencia a forte dependência de rotas específicas para o funcionamento de cadeias produtivas essenciais, uma vulnerabilidade estrutural da economia global. A concentração do fluxo de petróleo e de outros insumos estratégicos, os já citados fertilizantes, em um número reduzido de pontos geográficos torna o sistema internacional particularmente sensível a choques localizados. Nessas condições, eventos regionais, como conflitos ou restrições à navegação, são rapidamente transmitidos para a atividade econômica em diferentes países. Essa dinâmica revela não apenas a interdependência entre as economias, mas também os limites de um modelo global baseado em cadeias longas e concentradas, que amplificam os efeitos de instabilidades geopolíticas.


Assim, os impactos de choques no Estreito de Ormuz não são distribuídos de forma homogênea entre os países, refletindo diferenças na estrutura produtiva e no grau de dependência externa[9]. Economias fortemente importadoras de energia, como Japão e Coreia do Sul, tendem a ser mais diretamente afetadas pelo aumento dos preços do petróleo, enquanto países exportadores podem, em alguns casos, se beneficiar de receitas maiores no curto prazo[10]. No entanto, mesmo entre os exportadores, os efeitos não são uniformes, já que restrições logísticas podem limitar o escoamento da produção. Para países como o Brasil, que combinam dependência de fertilizantes importados com sensibilidade inflacionária a choques de custos, os efeitos tendem a se manifestar por meio do aumento dos preços internos e da pressão sobre a atividade econômica, evidenciando como a mesma perturbação pode gerar consequências distintas conforme a posição de cada país na economia global[11]


No fim das contas, Ormuz evidencia que a concentração do fluxo de energia nesses pontos torna o sistema sensível a choques, cujos efeitos se espalham rapidamente pelos preços, pressionando a inflação e afetando a atividade econômica. Para países como o Brasil, essa dependência se traduz em maior exposição a aumentos de custos e instabilidade, especialmente em setores como energia e agricultura. Portanto, as informações trazidas aqui dizem que, mais do que um ponto estratégico regional, o Estreito revela limites estruturais da economia mundial e como riscos geopolíticos podem se transformar em impactos concretos no cotidiano.


Notas:

[1]ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Strait of Hormuz. Encyclopaedia Britannica, 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Strait-of-Hormuz. Acesso em: 23 abr. 2026.

 [2] NUNES, André Figueiredo; VISENTINI, Paulo Gilberto Fagundes. Os estreitos no Oriente Médio e a segurança energética internacional. Revista da Escola Superior de Guerra, v. 33, n. 68, p. 82-100, maio/ago. 2018. Disponível em: https://revista.esg.br/index.php/revistadaesg/article/view/983/854. Acesso em: 23 abr. 2026.

[3] Ibidem.

[4] NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Mapa do Estreito de Ormuz. 2026. Disponível em: https://static.nationalgeographicbrasil.com/files/styles/image_3200/public/mapa-estreito-de-ormuz.png.webp?w=760&h=429. Acesso em: 23 abr. 2026.

[5] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Strait of Hormuz. Paris: IEA, 2026. Disponível em: https://www.iea.org/about/oil-security-and-emergency-response/strait-of-hormuz. Acesso em: 23 abr. 2026.

[6] Ibidem

[7] TRADING ECONOMICS. Petróleo Brent – preço. 2026. Disponível em: https://pt.tradingeconomics.com/commodity/brent-crude-oil. Acesso em: 23 abr. 2026.

 [8] COLUSSI, Joana; LANGEMEIER, Michael. Middle East conflict revives concerns over fertilizer dependence in the U.S. and Brazil. Purdue University – Center for Commercial Agriculture, 2026. Disponível em: https://ag.purdue.edu/commercialag/home/resource/2026/04/middle-east-conflict-revives-concerns-over-fertilizer-dependence-in-the-u-s-and-brazil/. Acesso em: 23 abr. 2026.

[9] INTERNATIONAL MONETARY FUND (IMF). World Economic Outlook: Global Economy in the Shadow of War. Washington, DC: IMF, 2026. Disponível em: https://www.imf.org/-/media/files/publications/weo/2026/april/english/text.pdf. Acesso em: 23 abr. 2026.

[10] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Strait of Hormuz. Paris: IEA, 2026. Disponível em: https://www.iea.org/about/oil-security-and-emergency-response/strait-of-hormuz. Acesso em: 23 abr. 2026.

 [11] INTERNATIONAL MONETARY FUND (IMF). World Economic Outlook: Global Economy in the Shadow of War. Washington, DC: IMF, 2026. Disponível em: https://www.imf.org/-/media/files/publications/weo/2026/april/english/text.pdf. Acesso em: 23 abr. 2026.

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