Próximos passos e consequências de ações petrolíferas dos EUA no pós-intervenção na Venezuela e seus desdobramentos na América Latina
- Raphael Costa de Oliveira

- 27 de jan.
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No dia 3 de janeiro de 2026, ocorreu a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, sob o codinome Operação Resolução Absoluta, conduzida pelo governo norte-americano de Donald Trump. Na madrugada desse dia, foram registradas explosões, ataques aéreos e movimentações militares em diversas regiões da Venezuela, sendo o principal alvo da operação o então presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores, os quais foram capturados e retirados do país.
Segundo Pam Bondi, a procuradora-geral dos Estados Unidos. Ambos enfrentariam acusações de “narcoterrorismo”. O governo venezuelano classificou a ação como uma agressão militar estrangeira, denunciando a violação de sua soberania e decretou estado de emergência. Com isso, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu interinamente e, em suas palavras, disse que a Venezuela “nunca será colônia de nenhum país”.

A partir disso, como os Estados Unidos podem reconfigurar o setor petrolífero venezuelano e quais efeitos isso produz sobre: mercado de petróleo, governança/receitas na Venezuela e o equilíbrio geopolítico na América Latina?
Para projetar os possíveis “próximos passos”, é essencial olhar no retrovisor e entender como se formou o arcabouço de sanções dos Estados Unidos contra a Venezuela desde a ascensão de Nicolás Maduro ao poder em 2013. Em linhas gerais, esse regime sancionatório foi construído por medidas executivas e congressionais como resposta a denúncias de repressão política, violações de direitos humanos, corrupção, narcotráfico e ações consideradas antidemocráticas, combinando sanções individuais, financeiras, setoriais e, mais recentemente, ao terrorismo.
Desde meados dos anos 2000, o Departamento de Estado dos EUA vem reiterando determinações anuais de que a Venezuela “não coopera plenamente” com esforços antiterrorismo, o que se conectou a restrições sensíveis como a proibição de vendas e transferências de armas. Já no eixo legislativo, um marco relevante foi a lei de 2014 voltada à defesa de direitos humanos e da sociedade civil, a qual serve de base para sanções direcionadas a indivíduos associados à violência, abusos e práticas antidemocráticas.
A partir de 2017, observa-se uma virada para sanções financeiras e setoriais de maior alcance, com o objetivo de restringir a capacidade do governo venezuelano de acessar financiamento e operar normalmente no sistema internacional. Nesse período, destacaram-se: restrições ao acesso do governo venezuelano e de entidades associadas aos mercados financeiros dos EUA; proibições envolvendo instrumentos específicos, como ativos digitais emitidos pelo governo; e a criação de uma moldura para bloquear ativos e restringir transações com agentes que atuem em setores designados da economia venezuelana ou que se envolvam em práticas corruptas vinculadas ao governo.
Em janeiro de 2019, esse processo se aprofunda com a designação da Petróleos de Venezuela (PDVSA) e a consequente ampliação de medidas que, na prática, congelam ativos sob jurisdição norte-americana e limitam transações de pessoas e empresas dos EUA com a estatal. Essa arquitetura sancionatória também passou a abranger outras instituições consideradas estratégicas, como autoridades monetárias e bancos públicos. Paralelamente, a política de licenças ganhou centralidade: em vez de um bloqueio absoluto e uniforme, Washington passa a operar com autorizações específicas para modular riscos, exceções e interesses.
Nos últimos anos, os EUA têm ajustado as sanções de forma “calibrada”: em alguns momentos, concedem alívios limitados e condicionais para tentar induzir mudanças políticas (como avanços na agenda eleitoral) e, em outros, endurecem as medidas conforme a situação piora. Nesse contexto, surgem instrumentos adicionais de pressão, como a possibilidade de impor tarifas a países que comprem petróleo venezuelano e exportem para o mercado norte-americano, elevando o custo para terceiros e ampliando o alcance extraterritorial das sanções.
Esse histórico ajuda a entender por que, no pós-intervenção, é provável que os EUA deixem de usar apenas sanções amplas e passem a adotar um modelo de controle por licenças e supervisão. Na prática, isso permitiria exportações selecionadas e a volta limitada de empresas, mas com regras rígidas: cumprimento de exigências, rastreamento do destino das cargas, restrições de pagamento e monitoramento das receitas. Com isso, Washington buscaria dois objetivos ao mesmo tempo: garantir, no curto prazo, acesso a petróleo pesado útil para refinarias do Golfo e, ao mesmo tempo, manter as sanções como instrumento de pressão e influência política na América Latina.
Utilizando-se de um espelho histórico, é possível compreender os eventuais “próximos passos”: o interesse norte-americano no petróleo venezuelano não nasce apenas de solidariedade e política externa, mas de uma combinação persistente de geografia, qualidade do óleo, integração de refino e instrumentos regulatórios. Esse histórico explica por que, quando há mudança de regime de sanções/controle, a cadeia EUA–Venezuela reage de forma rápida — mesmo que a recuperação física da produção demore anos.
· De 1920 até 1970, foi o marco de concessões e consolidação da indústria, com entrada e operações históricas de companhias estrangeiras; esse período formou capacidades e dependências comerciais que persistiram mesmo após a nacionalização. (MCBETH, 2009; COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2018).
· Em 01/01/1976, ocorreu a nacionalização e a criação da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.), promovendo a mudança do controle formal para o Estado venezuelano; o risco político passa a ser variável central, mas as relações comerciais e técnicas não desaparecem. (ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA, 2026).
· Entre 1986 e 1990, a PDVSA adquire a CITGO, originando uma integração vertical em que refino e marketing nos EUA passam a se alinhar ao desenvolvimento venezuelano; isso cria incentivos econômicos e uma “infraestrutura institucional” para reaproximações futuras. (CITGO, s.d.; BOUÉ, 2004).
· De 1990 até os anos 2000, intensificam-se investimentos e reconfigurações no parque de refino (especialmente no Golfo dos EUA) para processar petróleo mais denso e com maior teor de enxofre (heavy sour), o que fortalece a compatibilidade técnica como argumento econômico recorrente para flexibilizações e recomposição de fluxos. (CHEN, 2003; SEBA, 2026).
· De 2017 até 2019, ocorre aumento da escala de sanções e restrições ao setor, incluindo a base normativa de 2017 e a designação/sanção da PDVSA em 2019, consolidando o uso de instrumentos regulatórios como alavanca de pressão econômica (UNITED STATES, 2017; U.S. DEPARTMENT OF THE TREASURY, 2019; CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE, 2025).
· De 2023 até 2025, há ajustes e disputas sobre licenças e exceções (incluindo licenças setoriais temporárias e autorizações específicas), evidenciando uma dinâmica de “abertura condicionada” e de governança por compliance. (EIA, 2024; CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE, 2025; OFFICE OF FOREIGN ASSETS CONTROL, 2025).
· De 2026 em diante, com a captura de Nicolás Maduro e a retomada/controle de exportações sob supervisão, o caso evolui para um cenário de reconfiguração acelerada dos fluxos e do arranjo de controle sobre receitas e logística. (SEBA, 2026; REUTERS, 2026; TIME, 2026; CHATHAM HOUSE, 2026).
A história demonstra que a centralidade do petróleo venezuelano para os Estados Unidos não é episódica: ela reaparece em ciclos, mudando os instrumentos, mas preservando sua lógica estratégica. O “porquê agora” decorre de uma mudança de regime no presente: após um período de ruptura (anos de sanções e perda de capacidade), observa- se uma janela de reconfiguração — regulatória, operacional e geopolítica — que torna novamente decisiva a relação entre a qualidade do petróleo e o parque de refino do Golfo, sanções/licenças como tecnologia de poder, e efeitos colaterais regionais (migração, segurança, alinhamentos diplomáticos).
Historicamente, a Venezuela sempre teve um papel especial no mercado porque produz petróleo mais pesado e com mais enxofre, que se encaixa melhor em refinarias mais complexas (capazes de tratar e “limpar” esse tipo de óleo). Isso cria uma continuidade importante: quando o cenário político permite, a necessidade técnica acaba puxando a reaproximação comercial. Por isso, qualquer recalibragem que volte a permitir exportações — mesmo que de forma parcial e condicionada — tende a reativar essa complementaridade: o petróleo é compatível, a logística já é conhecida e há incentivo industrial para recompor misturas e margens no Golfo dos EUA. No passado, a influência dos EUA se deu principalmente por meios econômicos tradicionais: investimentos, relações corporativas e integração comercial. Com as mudanças institucionais e os conflitos políticos — como a nacionalização e disputas de governança — essa influência passa a ser exercida cada vez mais por instrumentos regulatórios. Hoje, sanções e licenças funcionam como uma espécie de controle de fluxo: determinam quem pode operar, para onde o petróleo pode ir e como o dinheiro pode circular. Isso muda decisões de empresas e governos no curto prazo e pode reorganizar alianças no médio prazo.
Além disso, o histórico mostra que o petróleo venezuelano nunca foi só um tema interno: ele sempre teve impacto regional, porque mexe com receitas, energia e alinhamentos diplomáticos. A diferença agora é o nível de pressão social e de instabilidade: migração, economias ilícitas e tensões de fronteira tornam qualquer alteração no setor petrolífero um fator direto de reordenação regional, com efeitos sobre a coordenação diplomática e a segurança na América Latina.
Assim, o histórico ajuda a explicar por que o cenário atual faz padrões antigos voltarem à tona, mas agora retornam por meio de instrumentos diferentes.
Diante desse histórico, quem tem o poder de mover o jogo agora?
Os próximos passos dos Estados Unidos não decorrem unicamente do instrumento político, mas da interação entre as decisões regulatórias do país, expectativas e respostas de empresas, intermediários logísticos, além dos limites físicos do próprio sistema petrolífero venezuelano. No geral, as consequências dessas decisões tendem a refletir o volume, destino e preço estimado do petróleo, os quais são subordinados tanto pelo arcabouço sancionatório norte-americano quanto à capacidade operacional de sustentar a produção e exportação petrolífera. (EIA, 2023; OFAC, s.d.).
Por parte dos EUA, o poder executivo e principalmente o Departamento do Tesouro (OFAC) funcionam como um “filtro” do que é permitido: licenças gerais e específicas, orientações – que definem quais transações podem acontecer e em quais condições. Sendo assim, o compliance vira um fator central tanto para decisões de compra quanto para transporte e investimento. (OFAC, s.d.; OFAC, 2024).
Empresas operadoras e refinarias de petróleo, sobretudo no GOLFO, historicamente costumam tomar decisões com base em dois critérios: se o petróleo é compatível com suas plantas técnicas de produção, e se existe alguma previsibilidade regulatória. Mesmo se há alguma vantagem econômica, elas tendem a reduzir a exposição a atividade petrolífera se, regras de licenciamento, pagamentos e rastreabilidade forem incertas, por risco jurídico ou reputacional. Traders e shipping também entram nesse resultado: quanto maior for o risco de interdição ou incerteza regulatória, maior será o número de seguros, fretes e due diligence, o que pode reduzir o volume total da atividade petrolífera, mesmo sem uma proibição total. (OFAC, 2023; OFAC, s.d.).
Já na Venezuela, o principal problema é o lado político, operacional e financeiro. A Petróleos de Venezuela (PDVSA) e joint ventures precisam renovar campos e instalações, recuperar integridade, lidar com as limitações do refino, além de atrair investimento estrangeiro. Dessa forma, o petróleo pesado demanda insumos de maior exigência técnica, e a falta desses elementos limita a capacidade de crescimento contínuo. Por isso, mesmo quando há uma maior flexibilidade regulatória, gargalos estruturais persistem (declínio da capacidade produtiva, fragilidades de infraestrutura e risco de interrupções), de modo que a concessão de licenças regulatórias para a exportação não assegura a capacidade operacional de manter fluxos contínuos e estáveis de fornecimento. A Administração de Informação Energética dos EUA (EIA) aponta que, quando há ganhos de produtividade no curto prazo, estes tendem a se concentrar em arranjos específicos com empresas autorizadas — o que, na prática, reforça a influência e a alavancagem financeira norte-americana sobre a dinâmica do setor. (EIA, 2023; EIA, 2024).
Por fim, o cenário não é apenas energético, mas também diplomático: países da América Latina e do Caribe entram nessa equação por fronteira, migração, segurança e reposicionamento geopolítico. De tal maneira que, ao mesmo tempo, China, Rússia e Índia buscam proteger interesses e disputar fluxos de capitais e ativos em um contexto de abertura seletiva, na qual o acesso ao petróleo pode depender de permissões governamentais e acordos políticos. (CRS, 2025).
Assim, com os atores e restrições mapeados, quais instrumentos os Estados Unidos podem acionar para transformar esse cenário em ações concretas no setor de petróleo?
Em primeiro lugar, é preciso compreender que os EUA sairiam de um modelo de sanções e ir para um modelo de licenciamento seletivo. Dessa forma, a Administração de Informação Energética dos EUA autoriza ou restringe transações por licenças gerais ou específicas, definindo o que pode acontecer, por quanto tempo e em quais condições. Isso permite ajustes rápidos e torna o compliance uma peça fundamental para o funcionamento do comércio. (OFAC, s.d.; OFAC, 2024).
Na prática, as licenças atuam como um mecanismo de calibração do mercado: ou seja, a expansão dessas fomenta a liquidez e a diversificação de agentes; em contrapartida, medidas restritivas elevam os custos de transação e introduzem incertezas quanto à oferta, forçando a reconfiguração das cadeias logísticas e dos parceiros comerciais. A própria Administração de Informação Energética dos EUA exemplifica como autorizações podem permitir, limitar ou encerrar transações que, sem licença, seriam proibidas. (OFAC, 2023; OFAC, 2024). Além disso, a arquitetura das políticas norte-americanas articula ações do Poder Executivo e do Congresso, possibilitando mediar a pressão conforme a conveniência diplomática, atingindo indivíduos, entidades e setores estratégicos. Por isso, a estrutura regulatória vira um instrumento direto de influência sobre receitas, governança e alinhamentos. (CRS, 2025).
O segundo incentivo é industrial. Parte das refinarias do Golfo dos Estados Unidos é mais adequada para processar petróleo pesado e com mais enxofre, ou seja, faz o petróleo venezuelano ganhar relevância quando a janela regulatória permite recompor fluxos de capitais. Quando esse tipo de petróleo fica escasso, refinadores buscam substitutos, como o óleo de alto enxofre, demonstrando a dependência de insumos compatíveis com refinarias mais complexas. (REUTERS, 2025).
Esse interesse aumenta se outras fontes regionais de petróleo pesado reduzirem exportações. A Reuters aponta que a Pemex tem desviado mais óleo pesado para finalidades domésticas e, como consequência, diminui a oferta que iria para refinadores do Golfo que elevam a importância de uma eventual recomposição venezuelana (sob licenças) para traders ou refinadores. (REUTERS, 2025).
Mas afinal, como essas ferramentas se traduzem em impactos no mercado, na Venezuela e na América Latina?
As consequências no mercado podem ser compreendidas de três maneiras:
· Choque de oferta entre produção e exportação de petróleo: caso haja aumento da produção/exportação petrolífera venezuelana, tal cenário tende a elevar a oferta global e pressionar os preços — especialmente em um cenário em que o próprio Departamento de Energia dos Estados Unidos (EIA) projeta crescimento global da oferta de líquidos e mantém a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) como variável relevante no balanço de oferta mundial em 2026. (EIA, 2026).
· Expectativa como “pilar fundamental”: Mesmo antes do petróleo chegar, o mercado reage de maneira condizente às licenças aplicadas, ou não, por parte do desenho estratégico norte-americano. Ampliar, restringir ou encerrar autorizações muda expectativas e molda decisões sobre a oferta futura e o risco regulatório. (REUTERS, 2026)
· Qualidade e capacidade de refino: o impacto não se dá apenas pela quantidade de petróleo, mas também por sua qualidade. O petróleo pesado e com mais enxofre é mais compatível com parte das refinarias complexas, como no Golfo, então a falta desse tipo de barril incorre em consequências, como influenciar decisões de importação, podendo empurrar refinadores para substitutos, quando há restrição. (REUTERS, 2025).
Além disso, podem ocorrer reações domésticas nos EUA: quando os preços caem, os produtores tendem a reduzir o ritmo de perfuração e completação. O Departamento de Energia dos Estados Unidos projeta uma queda de produção em 2026-2027 sob preços menores. Entretanto, no cenário de uma alta venezuelana, caso as licenças/sanções se agravem, pode-se ampliar a pressão baixista, aumentando o desconforto político do setor doméstico norte-americano. (KHAN; DISAVINO, 2026; VOLCOVICI, 2026)
Para a Venezuela, o ponto principal é separar curto prazo de médio prazo.
· Curto prazo: Foca-se na retomada da produção e escoamento, mas mesmo com mais permissões, os ganhos iniciais tendem a vir de recomissionamento de poços de petróleo e ajustes operacionais para aumentar a produtividade do escoamento existente — não de uma expansão imediata e grande. Entretanto, a Agência Internacional de Energia (IEA) ressalta que os ganhos de curto prazo são limitados, influenciados por problemas acumulados de infraestrutura e investimento. (REUTERS, 2026).
· Médio prazo: Foca-se no investimento e na integridade. Aumentar a produção de forma sustentável exige investimentos de capitais, manutenção, integridade de equipamentos, logística estável e uma boa política de governança. Se o ambiente político for instável, o risco de interrupções cresce; há, inclusive, relatos recentes de auditorias internas e disrupções operacionais após ataque cibernético, reforçando a volatilidade produtiva. (PARRAGA, 2026).
Portanto, autorizar exportações pode destravar fluxo de capitais, mas não resolve automaticamente o “motor” produtivo — que depende de tempo, investimento e estabilidade. (REUTERS, 2026; EIA, 2023).
Já na América Latina, os efeitos mais relevantes não costumam vir diretamente do petróleo, mas vêm com a crise.
· Migração e pressão fiscal/social: A crise venezuelana gerou um dos maiores fluxos de deslocamento do mundo, com cerca de 7,9 milhões de refugiados e imigrantes venezuelanos, elevando a demanda por serviços públicos que, como resposta, aumenta a oferta da capacidade humanitária nos países receptores. (UNHCR, 2026).
· Fronteiras e segurança: em cenários de instabilidade política ou em mudanças bruscas de poder, é comum haver aumento de tensões de fronteira - controle migratório, transferência de substâncias ilícitas transfronteiriças e pressões sobre forças de segurança, o que pode gerar tanto cooperação quanto atrito entre os países vizinhos.
· Reposicionamento geopolítico: A natureza das licenças e dos mecanismos de controle permite que os governos modulem sua atuação em fóruns internacionais, dinamizando a reestruturação de coalizões regionais e globais.
· Impacto em exportadores concorrentes: Se o petróleo venezuelano voltar, mesmo de forma parcial, pode-se surtir efeito competitivo indireto sobre outros exportadores regionais e sobre rotas de suprimento — especialmente no segmento de petróleo mais pesado. (EIA, 2026).
Em síntese, conclui-se que o período pós-intervenção não reflete uma normalização plena, mas sim a consolidação de um modelo de controle regulatório e operacional. Nesse sistema, as licenças e condicionalidades funcionam como instrumentos de gestão que filtram os agentes econômicos e direcionam os fluxos de petróleo e de capitais. Porém, esse desenho reordena as expectativas do mercado e impacta os spreads de preços do petróleo pesado e a recuperação da produção venezuelana, que segue limitada por gargalos infraestruturais e pela carência de investimentos. Por fim, a estabilidade institucional e a governança das receitas serão os fatores determinantes para definir se a trajetória do país será de crescimento sustentável ou de volatilidade, com repercussões diretas para a segurança e a diplomacia na América Latina.
Sendo assim, o questionamento que podemos fazer é: o petróleo venezuelano voltará como uma ponte para estabilização regional — ou como o gatilho de um novo ciclo de disputa, volatilidade e crise na América Latina?
Referências bibliográficas:
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