Mercado, Estado e Desigualdade: uma análise a partir das escolas do pensamento econômico
- Caio Camarotti Menezes da Silva

- 15 de jan.
- 18 min de leitura
Introdução
Pode o mercado reduzir desigualdades? O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou, em discurso realizado em 5 de setembro de 2025 na sede da B3, logo após a concessão (privatização) de uma rodovia no estado, que:
“A gente modela [projetos de concessão], a gente encara um programa desse, porque a gente acredita na iniciativa privada como força motriz. A gente acredita que é o recurso privado que vai trazer a transformação. A gente acredita que é o mercado que vai proporcionar a redução das desigualdades, que vai proporcionar a explosão de investimento que a gente precisa. O Estado, em si, não daria conta de fazer isso”[1]

Ao fazê-lo, Tarcísio propõe a primazia do mercado como solução para a redução de desigualdades do país, e explicita a ineficiência do Estado em conseguir atingir esse objetivo. Assim, o presente texto pretende analisar brevemente a viabilidade de utilização do mercado e da iniciativa privada como ferramentas de redução de desigualdades sociais.
Esse exercício possibilitará responder à pergunta inicial: O mercado conseguiria resolver o problema da desigualdade distribuindo a riqueza produzida de forma mais igualitária? Essa discussão será feita com base nos escritos dos pensadores da economia política, de forma a melhor compreender as raízes históricas desse pensamento e o que os seus proponentes pensam acerca dos papéis do mercado e do Estado. A utilização das teorias econômicas auxiliará a compreensão da realidade social como ela efetivamente é, e não a sua versão idealizada e projetada.
A escola clássica: produção, valor e distribuição
A escola clássica surge no contexto de transição entre o antigo regime feudal e o modo de produção capitalista. Dessa forma, os pensadores clássicos visavam “compreender o conjunto de relações sociais que estava surgindo na crise do antigo regime” (Netto; Braz, 2007). Uma das características mais marcantes dessa escola de pensamento é que os grandes expoentes dessa escola, Adam Smith e David Ricardo[2], buscavam compreender os problemas econômicos utilizando-se de outras áreas do conhecimento. A economia política nasce dessa tentativa de entender essa transição de sistemas, e as questões econômicas do seu tempo, com base na filosofia, direito e ética (Rubin, 2014, p. 210).
O primeiro teórico a se debruçar sobre a origem do valor das mercadorias foi Adam Smith em seu livro “A Riqueza das Nações”, no seu entendimento o valor de troca (proporção que uma mercadoria pode ser trocada por outras) é baseado na quantidade de trabalho que ela demandou para ser produzida:
Aquilo que, na ocasião, supomos conter o valor de uma quantidade igual. O trabalho foi o primeiro preço, o dinheiro de compra original que foi pago por todas as coisas. Não foi por ouro ou por prata, mas pelo trabalho, que foi originalmente comprada toda a riqueza do mundo [...] (Smith, [1776], 1983, p. 87)
Fica, pois, evidente que o trabalho é a única medida universal e a única medida precisa de valor, ou seja, o único padrão através do qual podemos comparar os valores de mercadorias diferentes, em todos os tempos e em todos os lugares. (Smith, [1776], 1983, p. 93)
Ao relacionar o valor de troca de cada mercadoria ao trabalho demandado na sua produção, Smith foi o primeiro proponente da teoria do valor-trabalho, que seria mais tarde também desenvolvida por Ricardo e por uma escola inteira de pensamento econômico. A riqueza de um país vinha do resultado da produção que era fruto do trabalho humano, servindo de pilar para definição de seu valor de troca: “O valor de uma mercadoria, ou a quantidade de qualquer outra pela qual pode ser trocada, depende da quantidade relativa de trabalho necessário para sua produção, e não da maior ou menor remuneração que é paga por esse trabalho” (Ricardo, [1817], 1982).
Depois de teorizarem sobre a produção da riqueza, os clássicos se debruçaram sobre a questão da circulação da riqueza, com ênfase em como as mercadorias eram trocadas. Segundo a escola clássica, o mercado é o espaço em que os chamados “agentes econômicos” realizam as suas necessidades individuais através das relações de trocas de trabalho entre eles. Desse modo, compradores e vendedores, cada um tendo a realização do seu próprio interesse como motivador principal, trocam valores de trabalho pois não possuem a capacidade de produzir tudo que necessitam.
O mercado era compreendido por Smith como um mecanismo civilizador, ao permitir que as sociedades organizassem a sua produção e dividissem o trabalho de forma que cada pessoa pudesse produzir algo para ofertar ao mercado e, assim, ter acesso a todas as demais mercadorias que não pudesse produzir. Mas relações de troca, e, portanto, o mercado, seriam algo da natureza humana:
Essa divisão do trabalho, da qual derivam tantas vantagens, não é, em sua origem, o efeito de uma sabedoria humana qualquer, que preveria e visaria esta riqueza geral à qual dá origem. Ela é a consequência necessária, embora muito lenta e gradual, de uma certa tendência ou propensão existente na natureza humana que não tem em vista essa utilidade extensa, ou seja: a propensão a intercambiar, permutar ou trocar uma coisa pela outra. (Smith, [1776], 1983, p. 73)
A busca de um imperativo natural desses mecanismos e motivações de troca, constitui-se em outra característica marcante dos pensadores clássicos, que enxergavam essas estruturas como naturais e que uma vez descobertas teriam um caráter imutável e eterno (Netto; Braz, 2007). O mercado, o ímpeto de troca de valores de trabalho e a busca da realização do interesse pessoal seriam intrínsecos a natureza humana.
A questão da distribuição também era um ponto central da teoria dos clássicos e uma das grandes linhas de investigação da economia política clássica. A desigualdade é uma problemática derivada da distribuição da riqueza produzida. Segundo Smith, a riqueza seria dividida entre 3 grupos, trabalhadores capitalistas e proprietários de terra que receberiam cada um seu tipo de renda equivalente (salários, lucros, rendas) (Smith, [1776], 1983).
Essa divisão da riqueza, da qual Smith trata, seria determinada “pela natureza das instituições e pelas leis do país” (Smith, [1776], 1983), e haveria uma espécie de harmonia social entre as diferentes classes, isto é, na distribuição dessa riqueza, pois cada classe perseguir o seu interesse individual promovendo o bem-estar coletivo através das trocas realizadas no mercado, cada um recebendo o que é cabido. Entretanto, é importante notar que Smith já notava como antagônicos os interesses da classe trabalhadora e da classe capitalista: “Os trabalhadores desejam ganhar o máximo possível, os patrões pagar o mínimo possível.” (Smith, [1776], 1983), embora defendesse essa harmonia social.
Ricardo deu um passo importante para o avanço da economia política ao compreender que os interesses das diferentes classes estavam diametralmente opostos, e que elas sim de fato competiam pela riqueza, não havendo essa harmonia social que Smith preconizava: “Quando os salários aumentam, é sempre à custa dos lucros, e quando aqueles diminuem estes sempre aumentam.” (Ricardo, [1817], 1982, p. 299).
No tocante a questão da desigualdade e pobreza, os clássicos reconhecem o sistema de trocas ao mesmo tempo que reconhecem o antagonismo dos interesses das classes e uma remuneração generosa que seja mais do que suficiente para o trabalhador viver. Nesse sentido, Smith escreveu que “Os trabalhadores desejam ganhar o máximo possível, os patrões pagar o mínimo possível. Os primeiros procuram associar-se entre si para levantar os salários do trabalho, os patrões fazem o mesmo para baixá-los.” (Smith, [1776], 1983). Nessa disputa, os capitalistas também levariam vantagem pelo tamanho do seu capital, podendo aguentar muito mais tempo (“um ano ou dois com o patrimônio que já puderam acumular”), enquanto a maioria dos trabalhadores não “conseguiriam subsistir uma semana, poucos conseguiriam subsistir um mês e dificilmente algum conseguiria subsistir um ano, sem emprego.” (Smith, [1776], 1983).
Os clássicos, apesar de haverem chegado à conclusão da existência de um antagonismo de interesses, depositavam no mercado a solução para o problema da pobreza (laissez-faire). Através do emprego produtivo das suas forças de trabalho, os pobres poderiam através do mercado, almejarem uma melhoria na sua condição de vida; sendo a intervenção estatal indesejável para essa finalidade.
Nesse sentido, o papel do Estado, segundo Smith, seria a proteção da sociedade, a administração da justiça, construção de infraestrutura e educação da classe trabalhadora (Smith, [1776], 1983). Já para Ricardo, o Estado deveria fomentar o barateamento dos alimentos, acabar com as leis da pobreza e não taxar os alimentos ou outros produtos de forma causar distorções no mercado (Ricardo, [1817], 1982).
Se tratando dos clássicos, portanto, a premissa de atingir o bem comum através da busca dos interesses pessoais, apesar de poder proporcionar a melhora de algumas pessoas, é ineficiente para a redução das desigualdades do sistema, uma vez que os antagonismos de classe são insolúveis. Dessa forma, seria paradoxal propor o capitalismo como solução para as contradições que são inerentes ao seu próprio modo de funcionamento. Em que pese, que as sociedades já eram desiguais antes do sistema capitalista, o capitalismo modificou, aprofundou, fomentou e perpetuou o aumento dessas desigualdades entre as classes de capitalistas e trabalhadores.
Como veremos adiante, ao se afastar da tradição clássica, a escola neoclássica desenvolve uma teoria do bem-estar de caráter radicalmente individualista, introduzindo uma abordagem distinta para a compreensão da desigualdade.
A escola neoclássica: utilidade, marginalismo e bem-estar
A escola neoclássica, surgida no século XIX, se firmou como a principal corrente do pensamento do atual sistema capitalista. A primeira grande ruptura da escola neoclássica com os pensadores clássicos vem com a negação da teoria do valor-trabalho e proposta da teoria valor-utilidade, segundo Say (1803): “A utilidade é o fundamento do valor; é dela que depende a produção, a troca e o consumo das riquezas”. Segundo essa teoria, o valor das mercadorias dependeria da utilidade, grau de satisfação cujo consumidor obtinha ao transacionar por essa mercadoria. Essa noção de utilidade seria posteriormente refinada por William Stanley Jevons e Carl Menger em 1871, na teoria da utilidade marginal.
Utilizando-se desse arcabouço teórico, os economistas neoclássicos foram fundamentais em refinar o conceito da teoria do valor-utilidade, afastando-se do conceito clássico de utilitarismo e transformando-a na teoria da utilidade marginal, que se estabelece como um “axioma central da ciência econômica” (Medeiros, 2013, p. 241).
O Marginalismo surge, portanto, como expressão do desejo dos autores neoclássicos em buscar através da racionalidade matemática as condições nas quais as empresas e consumidores podem maximizar os seus interesses. Dessa forma, a Economia se afasta das grandes questões trazidas pela escola clássica sobre a produção e distribuição da riqueza, que somem e dão lugar a busca de uma objetividade matemática como forma de expressão dos problemas econômicos; as questões centrais serão o consumo e a utilidade.
Dessa forma, no começo da década de 1870, os marginalistas: Jevons, Menger e Marshall; conseguem transformar a utilidade em um conceito matemático capaz de expressar o cálculo das mudanças incrementais das quantidades; ideia que serve como base da atual microeconomia ortodoxa atual (Medeiros, 2013). Como já mencionado, a inspiração inicial dos marginalistas foi a teoria da utilidade, portanto segue que para os marginalistas, o valor das mercadorias dependia exclusivamente da utilidade, e não do trabalho necessário para produzi-la (Jevons, [1871], 1983).
A utilidade marginal surge para explicar como os agentes econômicos, vistos como racionais, tomam decisões de troca de utilidades no sistema capitalista.
O esforço realizado para compreender o comportamento do indivíduo, defendendo a sua liberdade para transacionar, deriva da noção que enxerga e reduz a sociedade à agregação de indivíduos e seus desejos, o atomismo social. Esse é um pilar do pensamento neoclássico, que explica a teoria econômica do bem-estar hegemônica tal qual foi formulada para se encaixar com o modelo de produção capitalista. Segundo Bentham:
A comunidade constitui um corpo fictício, composto de pessoas individuais que se consideram como constituindo os seus membros. Qual é, neste caso, o interesse da comunidade? Qual é, neste caso, o interessa da comunidade? A soma dos interesses dos diversos membros que integram a referida comunidade. (Bentham, [1789], 1984, p. 04).
A ideia que surge ao reduzir a comunidade ao nível dos desejos individuais de cada um é que o bem-estar comum é atingido através da maximização do bem-estar individual do maior número de pessoas. Em termos econômicos segundo essa teoria, o mercado pode ser entendido como a agregação das utilidades marginais individuais dos consumidores e compradores.
Com a redução da economia a um sistema de trocas de utilidades entre seres racionais e maximizadores; não haveria espaço para os agentes de mercado despender de parte da sua utilidade em busca de um bem comum, porque estariam renunciando a parte de seu excedente. Com o estímulo da acumulação individual do capital, há um fomento à uma lógica de competição entre os indivíduos, suprimindo assim noções de colaboração e empatia. A teoria do bem-estar social pautada nessa ótica dita que o melhor estado de bem-estar será atingido através da busca individual de cada pessoa por uma melhoria na sua condição de vida, através de transações realizadas no mercado. É a circulação de mercadorias (trabalho, bens e serviços) que é o ponto principal da economia, uma vez que possibilita a acumulação de capital.
Desse modo, a teoria neoclássica é a teoria hegemônica e amplamente difundida como sendo a que em tese melhor explicaria o funcionamento dos mercados dentro do modo de produção capitalista. Porém, é necessário ressaltar o caráter reducionista e apologético da teoria com relação ao sistema capitalista, uma vez que foca nas relações e aparências em detrimento das estruturas que regem a sociedade.
As questões da pobreza e da desigualdade dentro dessa ótica seriam vistas como problemas cujas causas se apresentam no plano individual (Medeiros, 2013). Dentro desse contexto, a pobreza é vista como uma falta de renda para consumir. Uma vez que o indivíduo oferte a sua força de trabalho no mercado de trabalho, recebendo por isso alguma renda, ele poderá se inserir no mercado de consumo de bens e serviços; podendo melhorar a sua condição. Não haveria necessidade de intervenção estatal para a resolução desse problema, dado que o problema seria solucionado pela ótica da inserção dessa pessoa no mercado. Segundo Jevons: “O cálculo da utilidade almeja suprir as necessidades ordinárias do homem ao menor custo de trabalho. Cada trabalhador, na ausência de outros motivos, deve dedicar sua energia à acumulação de riqueza.” (Jevons, [1871], 1983, p. 61).
A lógica seria que os indivíduos devem buscar a maximização das suas utilidades marginais através do aumento das suas produtividades marginais. Trabalhadores mais produtivos recebem maiores salários, podendo consumir mais e poupar, e assim acumular riqueza e mudar a sua condição de vida. Como não há diferenciação entre os indivíduos, nem discussão acerca das diferentes condições socioeconômicas de cada um, presume-se que todos teriam a mesma capacidade e condição de transacionarem no mercado de forma a satisfazer seus desejos, dessa forma saindo da pobreza.
Enquanto os clássicos abordavam essa questão, de modo a chegar na conclusão de que o mercado seria a solução ideal para esses problemas; os neoclássicos nem sequer incluem essas questões em seus trabalhos. A conclusão é de que apenas a maximização das utilidades é relevante para o debate econômico, e que as pessoas devem buscar maximizá-las para atender aos seus interesses. Esse caráter apologético da teoria neoclássica à primazia do mercado e do capitalismo não é feito de um lugar puramente técnico e desprovido de uma ideologia. Pelo contrário, fica claro que tal proposições partem de uma defesa dos interesses da classe capitalista dominante.
Marxismo: Crítica Ontológica, valor, mais-valia e desigualdade estrutural
Karl Marx apresenta em sua obra “O Capital” (1967) uma crítica da economia política e uma análise sobre o modo de produção capitalista. O pontapé inicial de Marx é a sua discussão acerca da sua teoria do valor, centralizando a importância da mercadoria, e, portanto, a sua produção, no seu debate. Para Marx, “A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma “enorme coleção de mercadorias”, e a mercadoria individual como sua forma elementar.” (MARX, 1867).
Cada mercadoria seria imbuída de dois tipos de valores distintos: o valor de uso, baseado na utilidade daquele objeto, se efetivando apenas na sua utilização ou consumo; e o valor de troca, que é a proporção pelo qual um valor de uso é transacionado por outro valor de uso no mercado (Marx, 1867). Uma vez que o valor de troca de uma mercadoria não era uma propriedade física, natural ou intrínseca a ela, e não tinha caráter imutável (podendo mudar a proporção de troca de um valor de uso por outro ao longo do tempo), deveria haver uma maneira de determinar o valor de troca de uma mercadoria no mercado. Marx soluciona essa questão é chegando a conclusão de que os valores de troca são produzidos por trabalho humano e que a quantidade de trabalho socialmente necessário para produzir uma mercadoria, determina o seu valor de troca:
Consideremos agora o resíduo dos produtos do trabalho. Deles não restou mais do que uma mesma objetividade fantasmagórica, uma simples geleia [Gallerte] de trabalho humano indiferenciado, i.e., de dispêndio de força de trabalho humana, sem consideração pela forma de seu dispêndio. Essas coisas representam apenas o fato de que em sua produção foi despendida força de trabalho humana, foi acumulado trabalho humano. Como cristais dessa substância social que lhes é comum, elas são valores – valores de mercadorias. […] Mas como medir a grandeza de seu valor? Por meio da quantidade de “substância formadora de valor”, isto é, da quantidade de trabalho nele contida. A própria quantidade de trabalho é medida por seu tempo de duração, e o tempo de trabalho possui, por sua vez, seu padrão de medida em frações determinadas de tempo, como hora, dia etc. (Marx, [1867], 2013, p. 98 e 99)
Há, portanto, uma relação diretamente proporcional entre a quantidade de trabalho necessário para produzir uma mercadoria e o seu valor de troca. Quanto maior a quantidade de trabalho demandada para a produção de um bem, maior será o valor de troca desse bem.
Emerge a primeira contradição do sistema capitalista no tocante a produção da sua riqueza. No capitalismo há uma necessidade inexorável do capitalista a inovar e adotar tecnologias de produção que reduzam o tempo necessário de produção das mercadorias. Há um ímpeto em produzir a maior quantidade de valores de uso possível no menor espaço de tempo. Essa tendência é expressa na substituição do trabalho vivo (mão-de-obra) por trabalho morto (capital no formato de maquinário).
O trabalho morto não cria valor de troca, ele apenas transfere o valor de troca nele contido. Como apenas o trabalho humano cria valor, e com a tendência a diminuição da quantidade mão-de-obra empregada, a contradição da mercadoria é exposta na diminuição dos valores de troca contido em cada mercadoria, apesar do aumento na quantidade de valores de uso produzidos. Se o valor da mercadoria é trabalho, e o capitalista por natureza é poupador de trabalho, então cada unidade produzida em escala contém uma quantidade menor de trabalho (valor nela).
Como os seres humanos não são autossuficientes, precisam transacionar valores de troca (trabalho na forma-mercadoria) por outros valores de troca no mercado. O caráter fetichista da mercadoria fica explicito nessas trocas, uma vez que esconde “as relações sociais entre seus trabalhos privados aparecem como aquilo que elas são, isto é, não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, mas como relações reificadas entre pessoas e relações sociais entre coisas.” (Marx, [1867], 2013, p. 123).
Com relação à circulação de mercadoria no sistema capitalista, Marx foi enfático ao afirmar que: “A circulação de mercadorias é o ponto de partida do capital. Produção de mercadorias e circulação desenvolvida de mercadorias – o comércio – formam os pressupostos históricos a partir dos quais o capital emerge.” (Marx, [1867], 2013, p. 168). Mas o que seria, de acordo com Marx, a definição de capital?
Inicialmente, Wakefield descobriu nas colônias que a propriedade de dinheiro, meios de subsistência, máquinas e outros meios de produção não confere a ninguém a condição de capitalista se lhe falta o complemento: o trabalhador assalariado, o outro homem, forçado a vender a si mesmo voluntariamente. Ele descobriu que o capital não é uma coisa, mas uma relação social entre pessoas, intermediada por coisas. (Marx, [1867], 2013, p. 542 e 543)
Surge, portanto, a noção de diferentes classes dentro do sistema capitalista, os capitalistas e os trabalhadores assalariados, cuja relação é mediada justamente pela existência do capital. O capitalista para se tornar capitalista, precisa deter os meios de produção (terras, propriedades, máquinas) e precisa que haja uma parcela das pessoas que sejam forçadas a vender a sua força de trabalho. Não é a mera posse ou acúmulo desses meios de produção que conferem a alguém a posição de capitalista, senão, a existência simultânea de uma parcela da população a qual é privada de ter posse dos meios de produção. Dessa forma de acordo com Marx, o capitalista emerge apenas nessa dualidade com aqueles que são forçados a vender a sua força de trabalho, devido ao processo histórico de acumulação primitiva e alienação dos meios de produção. Nessa relação social, o capitalista irá contratar o trabalhador assalariado e empregar o seu capital para produção de mercadorias, visando a obtenção de lucro.
Essa relação social do capital se expressa na forma de circulação da mercadoria no sistema capitalista, que possibilita a sua acumulação. Segundo Marx, dinheiro pode assumir a forma de capital dependendo da sua forma de circulação (Marx, [1867], 2013). A fórmula geral do capital é D-M-D’, dinheiro que se transforma em mercadoria e que se torna um valor maior de dinheiro após a comercialização da mercadoria.
Podemos ver que como quase todas as coisas podem ser transacionadas no mercado (força de trabalho humano), tudo vira mercadoria que será comercializada e aparecerá na esfera da circulação. O capital investido pela classe de posse dos meios de produção tem que se valorizar e se tornar uma quantia maior, remunerando assim o investimento feito pelos capitalistas. Segundo Marx, o capital também tem caráter expansionista exigindo o constante acréscimo dos meios de produção e de novos mercados.
Capital precisa virar mais capital. Nesse modo de produção, o acúmulo de capital é dado em parte pela captura do excedente produzido pela classe trabalhadora. O trabalhador só é pago por uma parte do seu trabalho, com a outra parte do trabalho (“trabalho não pago”) sendo apropriado na forma de mais-valia pelo capitalista. A mais-valia é o valor excedente criado pelo trabalhador na produção das mercadorias (Marx, [1867], 2013).
O capitalista busca produzir a maior quantidade de valores de uso, com o menor emprego possível de trabalho, com a tendência de sempre que possível inovar a tecnologia de produção e substituir trabalho vivo (mão de obra) por trabalho morto (máquinas). Como o intuito é a acumulação de capital (D-D’) através da obtenção do maior lucro possível, o seu interesse é a minimização dos custos de produção, mantendo os salários os mais baixos possíveis e aumentando a mais-valia apropriada. Segue, portanto, que sem a ocorrência desse processo, não haveria a acumulação do capital.
No modo de produção capitalista, segundo Marx, essa apropriação da mais-valia do produto de trabalho da classe trabalhadora pela classe capitalista gera uma situação de exploração da força de trabalho e uma luta de classes. O antagonismo dos interesses de ambas as classes já tinha sido apontado também por Smith e Ricardo. A premissa básica é de que não há como melhorar a situação de uma classe sem necessariamente piorar a situação da outra. Os trabalhadores desejam receber salários maiores pelo emprego da sua força de trabalho. Por outro lado, os capitalistas desejam diminuir os custos de produção, empregando a menor quantidade de trabalhadores necessários e aumentando a produtividade de cada um, aumentando a produção de valores de uso e diminuindo o valor de troca unitário de cada unidade produzida. Dessa forma com custos mais baixos, iriam aumentar a produção de valores de uso e consequentemente a sua margem de lucro. Aos capitalistas interessa manter os níveis de salários o mais baixo possível para que possam acumular capital a taxas cada vez mais altas. A conclusão lógica é que não poderia haver no sistema capitalista um salário justo, um valor que remunerasse o trabalhador pelo produto efetivamente produzido no seu trabalho, pois se o trabalhador recebesse a quantia exata referente a sua produção, não haveria mais-valia (valor excedente do trabalho) para apropriação e acúmulo de capital.
A consequência natural da manutenção dos níveis de salários no menor nível possível é a perpetuação do sistema de acumulação de capital pela classe capitalista. Segundo Marx, essa divisão entre proprietários de capital e proprietários da força de trabalho é imprescindível para o modo de produção capitalista:
Portanto, enquanto o trabalhador pode acumular para si mesmo – o que ele pode fazer na medida em que permanece como proprietário de seus meios de produção –, a acumulação capitalista e o modo capitalista de produção são impossíveis. Falta a classe dos trabalhadores assalariados, imprescindíveis para esse fim. (Marx, [1867], 2013, p. 543)
Em síntese, Marx é o pensador da economia política que explica com maior detalhamento as relações sociais estabelecidas pelo modo de produção capitalista, e cujo trabalho continua descrevendo as relações de classe da sociedade de hoje em dia. Ao descrever o antagonismo entre os interesses de ambas as classes, e como se dá o processo de acumulação de capital através da captura da mais-valia; Marx demonstra como a desigualdade é algo necessário para a perpetuação do modo de produção capitalista.
Conclusão: Qual o papel do Mercado na redução das desigualdades?
Dessa forma, uma vez definido e analisado o nosso objeto de estudo, o sistema capitalista, retornamos a pergunta do início sobre qual seria o papel do mercado, dentro desse sistema, na redução das desigualdades socioeconômicas. A relação social entre as duas classes presentes no modo de produção capitalista é mediada pelo mercado. De um lado os capitalistas que detém os meios de produção e que vivem às custas do valor socialmente produzido pelo trabalho da classe trabalhadora. Dessa forma, os capitalistas não precisam produzir ou trabalhar para sobreviver, eles vivem do excedente de trabalho extraído. Do outro lado, os trabalhadores cuja subsistência e sobrevivência na sociedade dependem exclusivamente da sua capacidade de vender a sua força de trabalho no mercado.
É pertinente observar que no sistema capitalista, a desigualdade é fruto do processo de concentração de renda ocasionada pela acumulação de capital desenfreada estimulada pelo capitalismo. Nesse modelo, os detentores de capital sempre irão operar no mesmo modus operandi: busca por lucros maiores, minimizando os custos de produção, aprimorando a tecnologia de produção de modo a aumentar os ganhos sucessivos de capital. Segundo Marx, a tendência no modelo capitalista da produção é a troca de trabalho vivo (trabalhadores) por trabalho morto (máquinas e equipamento).
Empiricamente notamos a tendência de os capitalistas buscarem o menor dispêndio possível com os trabalhadores ao perceber como o mercado sempre irá demandar mão de obra pelo preço mínimo dos salários. Consequentemente, o conceito de luta de classes, observado pelos clássicos, e depois mais bem desenvolvido por Marx, se aplica na sociedade capitalista até os dias atuais. Os interesses econômicos das diferentes classes serão sempre antagônicos, pelo simples fato de que a melhoria na condição de uma classe será à custa da piora da outra. A relação inversamente proporcional se dá pelo fato de que se os salários sobem, a acumulação de capital irá diminuir. Para que a acumulação do capital cresça é necessária a manutenção desses salários no nível mínimo necessário.
Em conclusão, ao analisar o funcionamento do mercado, podemos constatar que a relação entre os agentes econômicos dentro do sistema capitalista não favorece o atingimento de interesses comuns, como a redução da desigualdade, dado que os interesses de cada classe no capitalismo são antagônicos. O capitalista visa o lucro, que é extraído da mais-valia produzida pela classe trabalhadora, que por sua vez deseja receber um salário maior, que seria obtido através de uma redução na taxa de lucro do capitalista.
O capitalismo é incapaz de fornecer uma resposta para a questão da desigualdade, porque ele floresce na exploração da desigualdade entre as classes, justamente ao fomentar essa realidade. Para os detentores do capital continuarem com o seu processo de acumulação, algumas condições são necessárias: a manutenção de um Exército Industrial de Reserva, de forma a manter os salários baixos e os trabalhadores competindo entre si; e a exploração da mais-valia da classe trabalhadora. Sem essas condições o capitalista não conseguiria continuar com o processo de expansão do seu capital. Portanto não é imaginável que o sistema capitalista possa dar uma resposta para o problema da desigualdade.
BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1984. [1789].
Referências Bibliográficas
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RUBIN, Isaak Illich. Ensaios sobre a teoria marxista do valor. São Paulo: Boitempo, 2014.
SAY, Jean-Baptiste. Tratado de economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1983. [1803].
SMITH, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Abril Cultural, 1983. [1776].
[1] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/09/estado-nao-da-conta-e-e-o-mercado-que-vai-reduzir-a-desigualdade-do-brasil-diz-tarcisio.shtml
[2] Nota sobre os outros.




